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A rubrica de opinião de um critico de TV externo, hoje por Nuno Azinheira.
"A verdade na TV"
Não faço ideia se Júlia Pinheiro
é do Benfica, mas vê-la ali aos saltos com o cachecol encarnado na cabeça, na Quarta-feira no Terreiro do Paço, não me chocou. Afinal, de Júlia já vimos tudo:
descalça, a rebolar, ou deitada no chão. A brincar com chouriças ou com maçarocas.
Ela é um todo o terreno e é nestes palcos populares que se sente
verdadeiramente à vontade. É essa, aliás, a sua força.
Com Rita Ferro Rodrigues
é diferente. Talvez porque seja amigo dela, talvez porque saiba como sofre pelo
seu Sporting, talvez porque lhe leia, via Facebook, as arranhadelas de leoa que
nos dá, a nós benfiquistas, sempre que o Benfica perde. Mas Rita foi a jogo. A
pedido da SIC, uma vez mais. E, uma vez mais, mostrou o seu profissionalismo.
Aquele à sério, de mulher dedicada que gosta do que faz.
Sei, porque a conheço,
que Rita Ferro Rodrigues recusaria fazer algo que fosse contra os seus
princípios, mas o futebol, caramba, é apenas futebol. Ela é verde por dentro,
mas na Quarta foi vermelha por fora. Percebo a luta interior, agradeço-lhe os votos
de boa sorte para a final com o Chelsea, mas, como seu amigo, lamento tê-la
visto ontem a puxar pelo clube rival. Em televisão, o que parece nem sempre é.
E é por isso que não há nada mais importante do que a verdade em televisão.
Não
vale a pena fingir que é apenas um pormenor. O espectador merece o melhor, mesmo
que o melhor seja um pormenor. E, mesmo percebendo que a SIC tenha querido
lançar a dupla Rita/Figueiras, a preparar os domingos que aí vêm, fez mal em
pedir a Rita Ferro Rodrigues esse sacrifício. Porque o espectador sabe que não
é verdade. Era como ver Júlio Magalhães a cantar Luís Piçarra ou João Malheiro
a balbuciar "gosto muito de você... leãozinho".
"A atitude é tudo"
Não sei o que é que a SIC ou a Endemol pediram a Filipa Marques, a
"repórter" escolhida para andar entre o "povo" no Terreiro
do Paço, na emissão especial que a estação dedicou ao Benfica-Chelsea. Mas
mesmo que lhe tenham pedido alegria, entusiasmo, fervor clubista e otimismo -
afinal, a SIC era a detentora do exclusivo em sinal aberto da final europeia -,
há uma coisa chamada bom senso que qualquer profissional deve ter presente. E o
que Filipa Marques fez ao longo de todo o dia foi algo inqualificável.
Porque
não teve peso nem medida, porque foi completamente fora do tom que a televisão
exige, porque, no seu afã de ser divertida, adepta, descomplexada e otimista,
foi excessiva, descompensada, popularucha, histriónica. Se há coisa que não
gosto é da ideia medieval de pelourinho. E os pelourinhos mediáticos dos novos
tempos - as colunas de opinião, o YouTube, o Facebook - podem ser, sei-o bem,
muito cruéis. Não quero crucificar Filipa Marques, que pode ser uma ótima e
dedicada profissional.
Mas alguém tem de lhe dizer que não, não esteve bem na Quarta-feira. Eu sei que a tendência é dizer "coitada, foi deitada às
feras", mas insistir nesse afago psicológico que, juntamente com as
palmadinhas nas costas, é uma coisa tão portuguesa, é enterrar a cabeça na
areia e não ajudá-la a crescer.
Filipa, não a conheço e não tenho nada contra
si. Mas, não, lamento, não esteve bem. Um direto entusiasmado não é um direto
histérico. Acredite, se lhe elogiaram a prestação na quarta-feira, das duas
uma: ou estavam a brincar consigo ou tiveram pena de si.
Autor: Nuno Azinheira em Diário de Noticias.
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